
Prefácio de Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego.
Monotonizar a existência, para que ela não seja monótona. Tornar anódino o quotidiano, para que a mais pequena coisa seja uma distracção. No meio do meu trabalho de todos os dias, baço, igual e inútil, surgem-me visões de fuga, vestígios sonhados de ilhas longínquas, festas em áleas de parques de outras eras, outras paisagens, outros sentimentos, outro eu. Mas reconheço, entre dois lançamentos, que se tivesse tudo isso, nada disso seria meu.
Realmente devo ser uma pessoa muito complexa. Por um lado, adoro preguiçar em casa, embrulhada numa manta sem ter nada que fazer para além de zapping. Por outro, aborrece-me mortalmente a indolência. Este marasmo de não ter algo interessante com que me ocupar irrita-me. Leva-me a reflectir acerca da sanidade mental daquelas pessoas que se acomodam com o rendimento mínimo e preferem (fazem tudo por tudo, aliás) para não trabalhar. Será possível não se ficar doido ao fim de meses e anos sem ocupação? Não acredito. É impossível! A pobreza de espírito que é não ter objectivos transcende-me. Não só com estas pessoas que se "encostam" e vivem com os impostos dos outros, mas com toda a pobreza de espírito em geral. Contentar-se com o mínimo sem explorar todas as potencialidades do ser humano. Não ir mais além, ser por vontade própria "mediano".
E vai daí se calhar tenho a mania das grandezas... Mas se conseguir evoluir sempre, não me importo com esse rótulo.